Entre Presidente Kennedy (ES) e Campos dos Goytacazes (RJ), pouco mais de 100 km separam essas cidades que, apesar de distintas, historicamente vivem sob a sombra do petróleo. Enquanto Kennedy é a campeã em arrecadação per capita, Campos lidera em valores totais. Ainda assim, o dinheiro — bilionário em escala — falhou em transformar as vidas de seus habitantes.
De 1999 a 2024, as 15 cidades “petrorrentistas” acumulam quase R$ 150 bilhões em royalties — cerca de R$ 95 mil por habitante — mas figuram entre os piores no ranking socioeconômico de seus estados .
Em Presidente Kennedy, mesmo com R$ 5,7 bilhões — ou R$ 390 mil per capita — as benesses ficaram no papel: rede de saneamento quase inexistente, saúde deficiente (sem ressonância, sem partos seguros, sem atendimento local), educação ruim e falta de oportunidades fora da máquina pública . Como destaca o agricultor Félix de Jesus:
“A cidade devia ser um ‘brinco’, mas aqui é uma cidade de miséria. Para onde vai esse dinheiro?”
Em Campos dos Goytacazes, mesmo com repasses que chegaram ao ápice dos bilionários, a realidade também é cruel. Mais de 40% da população vive em situação de vulnerabilidade no CadÚnico, a saúde está em colapso, a educação tem desempenho mediano e infraestrutura essencial — como saneamento ou transporte — é inexistente em áreas como Farol de São Thomé .
Especialistas apontam que o aumento orçamentário gerado pelos royalties não se traduziu em justiça social nem na mitigação das desigualdades. “Oil has an economic impact but no social impact”, resume Lia Hasenclever, pesquisadora da UCAM .
O fenômeno segue o que é conhecido como a “maldição dos recursos naturais”, em que a abundância de riquezas naturais não resulta em desenvolvimento humano ou estrutural real . E com a extração em queda — menos de 50% do volume de 2017 — a dependência dos royalties torna-se ainda mais preocupante .
Com informações da Agência Pública e The Guardian