Fenômeno já influencia o clima, principalmente no Sul, mas não explica sozinho temporais e vendavais registrados nos últimos dias
Enchentes, tornados, granizo, deslizamentos, ventos superiores a 100 km/h e até a formação de nuvens de rolo marcaram uma semana de tempo severo em diferentes regiões do Brasil. Diante da sequência de fenômenos, uma pergunta ganhou força: qual é a influência do El Niño nesses eventos?
Segundo especialistas, o fenômeno já exerce influência sobre o clima brasileiro, principalmente na Região Sul, mas não pode ser apontado como a causa isolada de todos os episódios registrados nos últimos dias.
O El Niño ocorre quando há um aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração interfere na circulação da atmosfera e pode modificar os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.
No Brasil, um dos efeitos mais conhecidos é o aumento da ocorrência de chuva na Região Sul. O painel formado por INPE, INMET, CEMADEN, ANA, SGB e Defesa Civil confirmou a configuração do fenômeno em junho e aponta alta probabilidade de sua permanência até pelo menos o início de 2027. Para o trimestre entre julho e setembro, a previsão indica maior probabilidade de chuvas acima da média em grande parte da Região Sul.
Sul sente os primeiros efeitos
O Rio Grande do Sul esteve entre as áreas mais afetadas pelos temporais recentes, com registros de chuva intensa, granizo e tornados associados à passagem de uma forte frente fria.
A influência do El Niño aparece com maior clareza no Sul porque, historicamente, o fenômeno favorece o aumento das chuvas na região. Isso, porém, não significa que todo temporal ou desastre possa ser diretamente atribuído ao fenômeno.
Os eventos extremos resultam da combinação de diferentes fatores atmosféricos, que podem variar de acordo com cada situação.
A preocupação dos especialistas está principalmente nos próximos meses. Com o El Niño estabelecido, existe a possibilidade de episódios de chuva intensa no Sul e de outros extremos meteorológicos ganharem força.
E os ventos fortes no Rio e em São Paulo?
Os vendavais que atingiram o Rio de Janeiro e São Paulo tiveram uma dinâmica diferente.
Segundo a análise apresentada por especialistas, o episódio esteve relacionado principalmente à passagem de uma forte frente fria. Uma massa de ar frio avançou do Sul e encontrou, no Sudeste, uma massa de ar mais quente do que o habitual para esta época do ano.
O grande contraste entre as massas de ar favoreceu a formação de fortes rajadas de vento, provocando queda de árvores, danos em estruturas, interrupções no transporte e outros transtornos.
Por isso, os especialistas não apontam o El Niño como responsável direto pelo vendaval que atingiu os dois estados.
Nuvens de rolo chamaram atenção
Durante a passagem da frente fria, outro fenômeno chamou a atenção: as chamadas nuvens de rolo.
Elas apresentam formato alongado e cilíndrico e podem se deslocar rapidamente em condições de forte contraste de temperatura e vento.
A formação surpreendeu até mesmo profissionais acostumados a acompanhar fenômenos meteorológicos. Durante um voo entre o Rio de Janeiro e uma plataforma de petróleo, o piloto Passos relatou ter observado a nuvem se aproximar rapidamente.
Segundo o relato, durante a aproximação para o pouso, os ventos passaram de aproximadamente 20 km/h para 100 km/h. Diante das condições consideradas inseguras, a tripulação decidiu retornar ao Rio.
Para o piloto, que acumula cerca de duas décadas de experiência e mais de 8 mil horas de voo, o comportamento recente do tempo tem apresentado mudanças bruscas e rápidas.
Um planeta mais quente
Além dos fenômenos naturais que interferem na circulação atmosférica, os cientistas também chamam atenção para outro fator: o aquecimento global.
Uma atmosfera mais quente contém mais energia e pode favorecer condições para eventos meteorológicos extremos mais intensos. Isso não significa que cada tempestade, tornado ou vendaval seja causado diretamente pelas mudanças climáticas, mas o aquecimento do planeta pode alterar a frequência, a intensidade ou as condições favoráveis para determinados extremos.
O próprio painel oficial do El Niño para 2026-2027 prevê temperaturas acima da média em grande parte do Brasil durante o trimestre de julho a setembro, aumentando também o potencial para episódios de calor e, em algumas áreas, para incêndios florestais.
O que esperar dos próximos meses?
A combinação entre o El Niño já configurado e um planeta mais quente exige atenção, principalmente porque os efeitos do fenômeno variam conforme a região.
Para o Sul do Brasil, a previsão oficial indica maior possibilidade de chuvas acima da média nos próximos meses. Já em áreas do Centro-Norte, o cenário projetado é de menor volume de chuva e temperaturas acima da média.
A conclusão dos especialistas é que não existe uma única explicação para a sequência de eventos extremos observada no país. O El Niño é um dos elementos que influenciam o comportamento do clima, mas frentes frias, massas de ar, diferenças de temperatura e outras condições atmosféricas também desempenham papel decisivo.
Diante desse cenário, o acompanhamento das previsões meteorológicas e dos alertas oficiais se torna ainda mais importante, especialmente em períodos de maior instabilidade.
Fonte: TV Globo/Fantástico
Foto: Reprodução


