A jornalista Ana Paula Mendes esteve em Campos dos Goytacazes para retratar um problema que tem preocupado pacientes e familiares em toda a região Norte Fluminense: a demora no acesso ao tratamento contra o câncer pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A reportagem especial mostra relatos de pacientes que aguardam há meses por consultas, exames e início do tratamento oncológico, mesmo diante da gravidade da doença. Um dos focos da apuração foi o Hospital Álvaro Alvim, uma das principais unidades de referência no atendimento oncológico em Campos.
Segundo denúncias apresentadas à Secretaria Estadual de Saúde, mais de 80 pacientes estariam esperando desde janeiro pela primeira consulta especializada, situação que ultrapassa o prazo previsto pela legislação federal. Desde 2013, a Lei dos 60 Dias determina que pacientes diagnosticados com câncer devem iniciar o tratamento pelo SUS em até dois meses após a confirmação da doença.
Na prática, porém, muitas famílias relatam dificuldades para conseguir atendimento dentro do prazo.
Entre os casos apresentados na reportagem está o da aposentada Joelma Marta Rodrigues, de 69 anos, moradora de Goytacazes. Diagnosticada com câncer nos rins no fim do ano passado, ela ainda aguarda o início do tratamento. Sem conseguir realizar todos os exames pela rede pública, contou com ajuda de amigos e familiares para custear uma biópsia em Itaperuna.
Além de enfrentar a doença, Joelma também é responsável pelos cuidados da mãe, de 103 anos, que está acamada.
A situação levou vereadores de Campos a discutirem a possibilidade de abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a regulação estadual de pacientes oncológicos na região.
Atualmente, os tratamentos contra o câncer em Campos são realizados nos hospitais Álvaro Alvim, Beneficência Portuguesa e Dr. Beda. As unidades também atendem pacientes de outros municípios do Norte Fluminense, ampliando ainda mais a demanda pelos serviços.
A Defensoria Pública informou que promove reuniões frequentes com órgãos de saúde municipais e estaduais para tentar agilizar os atendimentos e revelou que dezenas de ações judiciais são movidas mensalmente em busca de acesso rápido ao tratamento.
Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde afirmou que a regulação ocorre com base em critérios técnicos e de gravidade clínica. Já a Secretaria Municipal de Saúde informou que a responsabilidade pela regulação oncológica é do Governo do Estado, cabendo ao município o acolhimento e encaminhamento dos pacientes.
Durante a reportagem, Ana Paula Mendes afirmou que a experiência acompanhando casos semelhantes ao longo dos anos motivou sua entrada na vida política.
“O câncer não espera. E essas famílias também não podem mais esperar”, declarou.


